No final do ano passado, especialistas indicaram que o mercado imobiliário começaria a viver um momento de acomodação. A previsão era de que a valorização dos imóveis não seria no patamar do que havia sido nos últimos anos. No entanto, este cenário ainda não se concretizou nos primeiros meses de 2012. Na capital fluminense, o metro quadrado se valorizou em média 8,47% nos primeiros cinco meses do ano, índice pouco inferior (2,09 pontos percentuais) ao registrado em 2011. Já em Niterói, o valor do metro quadrado sofreu variação positiva superior entre janeiro e maio de 2012, ante o mesmo período do ano passado. Nos cinco primeiros meses deste ano, o metro quadrado na cidade valorizou 8,8%, índice 1,3 ponto percentual acima dos 7,5% em 2011.
De acordo com especialista em mercado imobiliário e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Paulo Porto, a maioria dos analistas foi induzida ao erro devido à sensação de que o mercado sofreria um ajuste por conta dos resultados ruins das construtoras listadas da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa).
“Boa parte das empresas que têm ações na bolsa tiveram resultados ruins e viram seu valor de mercado despencar e isso foi muito repercutido na mídia. Acontece que essas construtoras representam 40% do mercado. Os outros 60% são compostos por empresas de menor porte ou grandes construtoras, mas que não são listadas na bolsa”, explica Porto.
Para se ter uma ideia, no auge do boom do setor imobiliário, em meados de 2010, as 20 maiores construtoras juntas tinham valor de mercado em torno de R$ 53,1 bilhões. Hoje, essas empresas estão valendo cerca de R$ 30 bilhões. De acordo com o professor da FGV, um erro maior ainda foi prever que o mercado no Rio sofreria uma leve desaceleração. Para ele, o Estado deve continuar vivendo um momento de grande apreciação nos valores dos imóveis este ano, sobretudo para os lançamentos.
“O Rio vai continuar registrando valorização devido aos grandes eventos, como a Copa do Mundo e Olimpíadas, aliados ao forte investimento dos setores de petróleo e gás e naval. Nossa previsão é que, sim, pode haver uma valorização menor nos preços dos imóveis usados. Já os lançamentos devem continuar com forte apreciação”, disse o especialista.
O gerente da Coluna Consultoria Imobiliária, Nelson Azeredo Coutinho, concorda com o professor da FGV. Para ele, quem apostar em uma estabilidade dos preços dos imóveis vai perder dinheiro. De acordo com o gerente da Coluna, principalmente, Niterói vai continuar atraindo muitos moradores com alto poder aquisitivo.
“Se alguém pensar que haverá uma redução ou estabilização no mercado, está enganado. Niterói é uma cidade muito procurada e continuará atraindo mais pessoas. Os profissionais de alto nível que vão trabalhar no Comperj virão morar na cidade”, apostou Nelson Azeredo Coutinho.
De acordo com Paulo Porto, Niterói ainda desfruta da fama de ser uma das melhores em qualidade de vida do País e com vida menos agitada do que a capital fluminense. Outro fator que também deve influenciar positivamente o mercado é a chegada de investidores provenientes do mercado de renda variável, sobretudo da bolsa de valores. Em maio, a Bovespa teve o pior mês desde outubro de 2008 (estopim da crise econômica daquele ano) com queda acumulada de 11,86% a 54.490 pontos. O resultado ruim da economia norte-americana, a previsão de crescimento menor dos países emergentes e as incertezas quanto à crise nos países europeus têm feito investidores migrarem da bolsa para aplicações de renda fixa e para o mercado imobiliário.
“Já estamos sendo muito procurados por investidores que estão sendo atraídos pelo mercado imobiliário. Eles estão resgatando suas aplicações da bolsa e comprando apartamentos à vista ou dando entrada de olho na valorização futura do imóvel”, constatou o diretor superintendente da Brasil Brokers em Niterói, Bruno Serpa Pinto.
O gerente da Coluna aposta em uma grande valorização nos bairros do Centro de Niterói, devido ao reordenamento que a região sofrerá, e em Charitas, por conta dos investimentos comerciais. Ele apontou também Icaraí. Coutinho lembrou que um imóvel na Rua Moreira César, em Icaraí, foi vendido há quatro meses por R$ 660 mil e hoje está avaliado em R$ 800 mil, valorização de 21,21% no período.
Bolha – A crescente valorização dos preços dos imóveis nos últimos anos, além de euforia trouxe também a preocupação de que o mercado imobiliário brasileiro estivesse inflando uma bolha, nos moldes da que estourou nos Estados Unidos e gerou a crise econômica mundial em 2008. No entanto, de acordo com Paulo Porto, o Brasil não corre o risco de sofrer um fenômeno parecido. Para ele, o crescimento do setor imobiliário ocorreu por conta de uma série de fatores: o baixo endividamento brasileiro no setor imobiliário, o enorme déficit habitacional que o País ainda tem e, por isso, uma demanda reprimida, além de um ajuste dos preços ao nível internacional.
“O maior responsável pelo boom do mercado foi o déficit habitacional que o Brasil ainda tem. Estima-se que o País ainda precise de pelo menos 6 milhões de unidades. A maioria para baixa renda. Mas 2 milhões deste total são para residências fora do programa Minha Casa, Minha Vida. Ou seja, são pessoas que têm renda, mas ainda não puderam comprar a casa própria”, explicou Paulo Porto.
O professor também argumentou que, devido ao baixo crescimento do País nos anos 90, os preços dos imóveis estavam defasados e bem abaixo dos níveis praticados em outros países e por isso houve um ajuste em relação ao mercado internacional. Outro fator responsável pelo crescimento foi a concessão de crédito, que, segundo o professor ainda precisa aumentar.
“Em 2011, o endividamento imobiliário correspondeu a 4,5% do PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil. Em países europeus e Estados Unidos, esse índice chegou a 30%. Então, está na hora de produzir essa dívida para o mercado imobiliário. É uma dívida saudável, que tem garantias”, disse.
Crescimento estimulado
O preço dos imóveis nos últimos anos subiu muito além da renda dos compradores e mutuários, o que começou a preocupar especialistas do setor. Com o alto valor dos imóveis, em pouco tempo, o financiamento acabaria travando devido à renda limitada dos consumidores. Neste sentido, a política de redução dos juros para todas as linhas de créditos e outras facilidades promovidas pelos bancos públicos e privados, pressionados pelo governo para tentar impulsionar o crescimento do País, acabou beneficiando o setor imobiliário. De acordo com a Caixa Econômica Federal, com as recentes reduções de juros, o banco estima que, em 2012, o crédito imobiliário possa alcançar R$ 100 bilhões em vez dos R$ 90 bilhões previstos anteriormente. Nesta semana, a estatal informou que estendeu o prazo do financiamento imobiliário de 30 para 35 anos, decisão seguida pelo Santander.
“A redução dos juros foi em média de 1% para qualquer tipo de financiamento. E agora com a extensão do prazo de pagamento para 35 anos, as construtoras vão continuar investindo em novos empreendimentos. Com isso, a classe B vai se sentir muito incentivada a comprar”, projetou Paulo Porto.